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30 de julho de 2018

A tríade dos investimentos

A educação financeira é um assunto plenamente disponível no mundo da internet, existe material de excelente qualidade em sites, canais de mídia, fóruns e até mesmo em redes sociais. Essa facilidade de acesso permite às pessoas buscar este conhecimento tão importante para as nossas vidas e oferece diariamente a cada uma delas a oportunidade de redenção. Contudo, quando se olha mais de perto percebe-se que as pessoas não conseguem (ou não querem) absorver aquele conteúdo, mas há um interesse em pular todas as etapas do aprendizado, pelo menos para o ouvinte iniciante, e chegar no seguinte ponto - "Qual o melhor investimento?"
Este imediatismo implica numa série de conceitos ignorados pela pessoa, preceitos que ela desconhece e que parecem óbvios aos mais esclarecidos no tema como: quais seus planos? Seus objetivos de vida? Quando/como pretende desfrutar deste dinheiro? O que está disposto a suportar?

A tríade dos investimentos 


No mundo dos investimentos há três aspectos fundamentais a serem considerados quando diversas opções são comparadas:

  1. Rentabilidade: Qual ritmo de multiplicação do principal?
  2. Liquidez: Quão rápido eu consigo reaver parte ou todo meu capital?
  3. Risco: O que me disponho a aceitar nesta operação?

Estas três características estão presentes em toda e qualquer operação que visa aumentar o patrimônio, mas as três muito dificilmente serão ideais ao mesmo tempo, caso contrário você teria o "investimento ideal" e convenhamos, quem faria qualquer outra operação então?

Figura 1 - Tríade dos investimentos: Liquidez, rentabilidade e riscos.


Os investimentos disponíveis no mercado geralmente oferecem apenas duas destas três vertentes em boas condições, como seguem os exemplos abaixo:

  • Imóveis: Geralmente apresentam baixos riscos para o capital, uma vez que são estruturas físicas e podem apresentar elevadas rentabilidades para pessoas experientes neste nicho de mercado, todavia as negociações podem ser difíceis e levar vários meses;
  • Fundos Imobiliários (FIIs): Alternativa ao investimento direto em imóveis este tipo de ativo permite que sua posição ou apenas uma fração dela seja negociada em minutos e com rentabilidade interessante, porém você fica sujeito à variações de humor do mercado e a administração terceirizada do seu ativo;
  • Títulos de renda fixa: Existem títulos dos mais variados tipos, alguns apenas permitem reaver seu dinheiro no final do prazo do seu investimento, caso contrário sua rentabilidade pode ser mais baixa comparada a outras opções dentro da própria renda fixa, preço pago por um investimento que dificilmente oferece grandes riscos ao capital;
  • Ações: Obter uma parte de uma empresa é tão fácil como vendê-la na bolsa de valores e leva apenas alguns minutos, os rendimentos de apenas um dia podem ser maiores do que aquilo que se consegue através da renda fixa em um ano, mas assim como os valores podem aumentar expressivamente eles podem diminuir expressivamente através de movimentações políticas e econômicas do ambiente externo.
Existem outras modalidades de investimento, mas por enquanto nenhuma delas contempla de maneira agradável a estes três aspectos ao mesmo tempo, nem mesmo os fundos em geral (previdência, renda fixa, ações e multimercados), afinal estes são menos eficientes com os recursos disponíveis, uma vez que os custos internos são maiores e no caso de promessas de obter rendimentos acima da média do mercado a liquidez acaba prejudicada, assim como acentuam-se os riscos.a que se expõe.
A todo momento o mercado evolui e novas possibilidades surgem no horizonte, contudo desconfie se algo te prometer liquidez, elevadas rentabilidades e pouco ou nenhum risco.

29 de maio de 2018

O Mito da Caderneta de Poupança

Muitas pessoas se veem reféns de produtos de baixíssimo retorno como a caderneta de poupança pela tradição que este tem na nossa sociedade, pela confiança na modalidade de investimento e sua solidez e, além disso, pelo fato dos rendimentos serem isentos de imposto de renda, mas sabendo que o seu dinheiro  pouco rende ao longo do tempo na poupança, por que muitos insistem em não descobrir um mundo novo de possibilidades e variedades de investimentos?

Possivelmente a primeira palavra que vem à cabeça dos brasileiros quando se pergunta sobre investimentos é a "Poupança" e isso é plenamente justificável, afinal a mesma foi instituída por Dom Pedro II nos tempos imperiais (fonte), ou seja, no Brasil há uma tradição de mais de 150 anos nesta aplicação, nossos pais, avós e talvez até mesmo bisavós tiveram contato com este tipo de produto financeiro, o que passa muita segurança e solidez a quem recorre a este mecanismo. Isso é muito pouco para justificar a enorme resistência da população à migração para outras opções mais rentáveis como o Tesouro Direto e CDBs, por exemplo.

Muito se fala sobre o conhecimento do povo acerca da caderneta e dos seus respectivos rendimentos, mas gostaria então que alguém se pronunciasse, em detalhes, quanto rende ao longo do tempo este investimento? Não vale copiar a informação do site do Banco Central! O cálculo da rentabilidade é tão complexo quanto às alternativas que citei logo acima:

- Quando a SELIC atinge patamar igual ou inferior a  8,50% ao ano, 70% desta respectiva taxa mais TR;
- Nos demais casos, 0,50% ao mês (ou aproximadamente 6,17% ao ano) mais TR;

O que será que é essa TR, afinal? (Taxa Referencial - Wikpedia) Você depositaria seu dinheiro sem nem ao menos saber como se calcula isso? Então não me venha defender a caderneta de poupança com o argumento que você sabe facilmente o retorno que terá.

Outros dirão que a segurança é insuperável! Pois bem, a poupança é efetivamente segura, conta com a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) num limite de até R$ 250.000,00, por CPF e instituição bancária no caso desta ser liquidada pelo Banco Central, exatamente a mesma garantia oferecida por CDBs, LCIs, LCAs e LCs, produtos que facilmente oferecem rentabilidades superiores!

Quem sabe alguns dirão que a liquidez os faz manter seu dinheiro depositados nesta aplicação centenária. Neste caso fique sabendo que, embora o saque da caderneta de poupança estar disponível no dia seguinte a aplicação, você não terá rendimento algum em prazo inferior a 30 dias, enquanto CDBs com liquidez diária te oferecem a mesma possibilidade, mas rendendo a partir do primeiro dia (claro que incide IOF dentro do prazo de 30 dias, mas mesmo assim sendo superior a caderneta no curtíssimo prazo).

Isso tudo nos leva ao último argumento: Não há cobrança de Imposto de Renda sobre os rendimentos da Caderneta de Poupança! O brasileiro tem pavor do fisco e a ideia de ter que pagar algo ao governo na sua declaração de ajuste anual justifica, mesmo no final das contas, uma rentabilidade inferior a demais opções no mercado, tão seguras quanto, tão acessíveis quanto e com tanta liquidez ou mais que a caderneta. Fique você sabendo que há alternativas também isentas de IR, como LCIs e LCAs (se procurar bem até mesmo em liquidez diária) e no caso de precisar acertar contas com o Leão, os investimentos em renda fixa tributáveis (Tesouro Direto, CDBs e LCs) são tributados diretamente na fonte, ou seja, nada será cobrado diretamente do investidor, pois este já recebe o retorno do investimento da instituição financeira com os devidos tributos pagos. Cabe ao contribuinte apenas informar estes valores no seu ajuste anual, assim como já faz com a Caderneta de Poupança, desde que se enquadre em pelo menos um dos critérios exigidos pela Receita Federal para precisar entregar a Declaração.

Com tudo isso mostrado acima, por que mais de 60 milhões de pessoas tem dinheiro aplicado na Poupança no Brasil? Este é o preço da ignorância, do medo, da falta de curiosidade e de interesse em aprender sobre o seu próprio dinheiro, e que é pago mês após mês, ano após ano, por mais de 60 milhões de brasileiros. E você, quanto dinheiro tirou dos seu bolso este mês por simples ignorância ou teimosia?

7 de fevereiro de 2017

Remoção de títulos no Tesouro Direto

A partir de 08/02/2017 o Tesouro Direto sofrerá uma pequena reformulação. Alguns títulos com horizontes de vencimento mais curtos ficarão indisponíveis para investimento pelo programa, pois a atratividade destes fica menor tanto quanto se aproxima do vencimento devido à incidência do imposto de renda. Não serão mais ofertados os seguintes títulos:
  • Tesouro Prefixado 2019 (LTN - 01/01/2019);
  • Tesouro IPCA+ 2019 (NTN-B Principal - 15/05/2019);
  • Tesouro SELIC 2021 (LFT - 01/03/2021).
Por sua vez, serão ofertados três novos títulos:
  • Tesouro Prefixado 2020 (LTN - 01/01/2020);
  • Tesouro IPCA+ 2045 (NTN-B Principal - 15/05/2045);
  • Tesouro SELIC 2023 (LFT - 01/03/2023).
Estas alterações podem trazer uma boa oportunidade para investimento de longo prazo, pois o Tesouro IPCA+ 2045 passa a ser o título com liquidez no vencimento de maior prazo do portfólio do Tesouro Direto, oferecendo ganho real e efeito de juros compostos bastante interessante (prazo de até 28 anos). Também merece ser ressaltado que o fenômeno observado em 2016 com a valorização do Tesouro IPCA+ 2035, melhor investimento do ano de 2016 com valorização de 47,81% (superando inclusive o IBOVESPA) para venda antecipada devido à perspectiva de queda de juros, tem condições de se repetir futuramente com este novo título. O Tesouro IPCA+ 2045 deve ser ainda mais volátil que o tesouro IPCA 2035+, podendo gerar lucros acima do esperado para a venda antecipada no caso da queda das taxas de juros do programa, mas ATENÇÃO, se a curva de juros se inverter dentro do período de investimento prejuízos podem ocorrer na liquidação antecipada.
Uma pequena crítica se permite fazer ao Tesouro Direto, ainda são poucas opções de títulos e datas de vencimento disponíveis para o investidor pessoa física, dando menos liberdade ao investidor para escolher as datas que deseja receber o dinheiro de volta ou organizar um fluxo de caixa mais consistente.

30 de janeiro de 2017

Juros em queda e o fim da renda fixa no Brasil



            Em Julho de 2015 a taxa de juros básica da economia brasileira, a SELIC, atingiu incríveis 14,25%, maior valor desde 2006. Patamar este que foi mantido durante boa parte do ano de 2016 alimentado pelo agravamento da crise econômica e política. Com o rally do impeachment concluído com sucesso os ânimos do mercado se acalmaram e foi possível observar grande recuperação do mercado de ativos no país, tal qual a recuperação do IBOVESPA e do IFIX.
            Contudo, a pressão inflacionária que se viu iniciar em 2014 começou a dar sinais de cansaço ao final de 2016 e no último trimestre deste ano iniciou-se um ciclo de cortes da taxa SELIC. Iniciado de maneira modesta pelo Banco Central com cortes na ordem de 0,25% anuais a primeira reunião do COPOM em 2017 trouxe uma surpresa, um corte de 0,75%, o suficiente para se espalhar a ideia que as opções de investimento em renda fixa estavam acabadas nas terras tupiniquins. Portais de corretoras de grande atuação no mercado passaram a difundir o pensamento que a partir de agora as apostas mais decentes do mercado seriam em renda variável, que o Brasil estaria pronto para viver logo uma era com uma taxa básica de juros real na casa de 0%. Pronto! A renda fixa acabou pelo jeito, vou me livrar de minhas aplicações em Tesouro Direto, CDB, LCI, LCA, fundos DI.
            Antes de começar esse processo de mutilação que é o giro patrimonial vamos parar por um momento e analisar alguns números dos últimos três anos: o IPCA, a SELIC e os juros reais praticados no Brasil neste período. Primeiramente, o que são juros reais? Juros reais são nada mais, nada menos, que a taxa básica de juros (SELIC) descontados da inflação medida (IPCA) no período analisado, ou seja é a verdadeira taxa de aumento do patrimônio e o valor que importa na escolha dos investimentos. Há quem acredite que basta subtrair a segunda da primeira, isto funciona razoavelmente bem em países nos quais a inflação tende a zero, mas estamos no Brasil então há um pequeno truque:

Fórmula para o cálculo de juros reais

            Diante desta informação pode-se comparar os juros reais no Brasil nos últimos anos, conforme mostrado no gráfico a seguir para 2014, 2015 e 2016:

SELIC, IPCA e Juros Reais no Brasil nos anos de 2014, 2015 e 2016.

            É possível notar que juros reais variaram essencialmente em torno dos 4,50% anuais em todo o período de análise, inclusive durante boa parte de 2016, por muitos chamado de ano da renda fixa no Brasil. A exceção encontra-se no final de 2015 e início de 2016 onde houve um pico inflacionário e para os últimos meses de 2016 quando se teve uma trégua no IPCA, levando aos maiores juros reais do período em análise. Diante desta constatação entende-se porque os juros estão em queda, o ano de 2016 encerrou com os maiores juros reais nos últimos anos!
            Ok, isso foi em 2016 e taxas vistas no passado não são garantias de rendimentos futuros, o que pode-se esperar para 2017? Para nos auxiliar nesta análise recorre-se a ajuda do boletim Focus liberado pelo Banco Central em 27/01/2017 que reúne as expectativas do mercado para 2017 com SELIC de 9,50% e IPCA de 4,70% e em 2018 com 9,00% e 4,50%, respectivamente.

Previsões do Boletim Focus para 2017 e 2018

            Observa-se novamente que os juros reais praticados devem situar-se próximos à faixa de 4,50%. O que justifica este pânico no mercado a respeito da renda fixa? Quem sabe o longo prazo então? Bom, não sou especialista em Economia, porém o Brasil tem uma dívida bastante elevada e em vez de buscar reduzi-la, na verdade trabalha com um rombo declarado para os próximos exercícios, ou seja, precisará fazer novas e maiores dívidas para quitar dívidas anteriores, como pensar em juro real próximo a zero? Se o Banco Central resolver passar por cima deste princípio e reduzir à força os juros no Brasil (não esqueçam que em 2018 teremos eleições) quem ajudará o país a rolar a dívida tendo o risco elevado e o prêmio reduzido? Sinceramente é muito difícil acreditar em uma queda vertiginosa nos juros reais por aqui nos próximos anos ou quem sabe décadas, visto que o governo terá que arcar com títulos do tesouro a taxas elevadas até 2035 ou 2050.
            Se a SELIC ou o CDI lhe parecem muito pouco num cenário de inflação mais comedida, fique à vontade para buscar outras opções de investimento mais rentáveis, mas dificilmente o Brasil perderá a fama de país da renda fixa nos próximos anos.